No
início desta semana, compartilhei uma imagem que dizia NÃO a PEC215
(que transfere ao Congresso Nacional a responsabilidade pela demarcação
de terras indígenas). Entre os poucos comentários, um do primo Felipe:
“Não sei... mas as terras indígenas estão tomadas por estrangeiros. Vcs
acham mesmo que eles querem mimar nossos índios? O comentário aqui em
Brasília é que eles querem explorar os índios.”
Fiquei um par de dias sem acessar o FB, mas quando finalmente li seu comentário, pensei tanta coisa que... Bem, não resisti:
Uma carta para meu primo.
Eu sei, primo.
Claro, sei algumas poucas coisas. Umas são tão simples e óbvias que me
permitem usá-las como alicerces confiáveis (biológica e historicamente)
para minha singela opinião.
Ao longo desta missiva perceberá que, de certa maneira, vou focar nas etnias que habitam a Floresta Amazônica.
Faço-o por dois motivos (e suas consequências): um - a já antiga e cada vez mais perigosa degradação daquele ecossistema;
dois – minha indignação (humana e cívica) ao ver essa degradação sendo
‘legitimada’ (AGORA explicitamente) e alavancada pelo poder público.
Refiro-me aqui ao plano suicida de ‘desenvolvimento-a-qualquer-curso’
(remetendo-me à abertura da Transamazônica durante a Ditadura) com seus
absurdos projetos de hidrelétricas nos rios da região norte. Obras com
gigantescos (e irreversíveis) impactos ambientais e - sabidamente – com
tradição de desrespeito aos direitos indígenas. Cito a consulta PRÉVIA
às populações atingidas, garantida pela Constituição de 88; e, APÓS o
início das obras: o não cumprimento das condicionantes.
Ora, são brasileiros como eu e você. Não é legal, né? Por isso existem direitos e deveres. E são para todos.
Faço questão de reforçar que a luta legal pela posse ou demarcação de
terras indígenas em várias regiões do país – também está inclusa quando
me posiciono FRONTALMENTE contrária a Proposta de Emenda Constitucional
215/2000.
Estou e sempre estarei do lado da justiça. Da Justiça legal e da justiça moral. Se ambas me dizem SIM, julgo a causa justa.
Bem, vamos lá!
“... mas as terras indígenas estão tomadas por estrangeiros.”
A questão é: esses estrangeiros estão nessas terras legalmente? Foram
convidados? E quando digo ‘convidados’ me refiro a um convite feito
pelos DONOS da ‘casa/aldeia’. Se o foram e estão LEGALMENTE em nosso
país - não há muito o quê dizer.
Mas, se com “tomadas por
estrangeiros” você quis dizer que pessoas/multinacionais estão se
apropriando e se instalando em terras indígenas, sob as vistas grossas
dos nossos representantes públicos: aí sim – há muito o quê dizer.
E esperar que se faça. A Justiça está aí para isso.
“Vcs acham mesmo que eles querem mimar nossos índios?”
Hummm... O que você quer dizer com ‘mimar’? Encher de cafunés? Ou mimar
no sentido de lhes satisfazer as vontades? Talvez encher de presentes
como fazem nossos papais e mamães brancos? Ou seria dar-lhes presentes
grandiosos como Belo Monte?
Mas se é dar-lhes voz para que falem
por si, se é dar-lhes a importância humana e cultural que nós, tão
estrangeiros quanto, não lhes damos...
Mas e se esses estrangeiros roubarem, e pior, patentearem valiosos conhecimentos endêmicos?
(Olha que pensando globalmente, como terráquea que sou, até dava para
ser radical: se pelo menos descobrissem a cura do câncer, no futuro
muita gente iria se beneficiar. Mesmo que isso nos custasse caro – em
todos os sentidos... Mas ligue não, meu rei esse minino, isto foi só um
devaneio acalorado. Obviamente sou contra a biopirataria. Ou qualquer
tipo de exploração.)
Penso que devíamos investir em preservação,
pesquisa e tecnologia para, de uma maneira nova, justa, sábia,
sustentável – e em estreita parceria com os povos da floresta - podermos
todos usufruir dessa rica biodiversidade.
“O comentário aqui em Brasília é que eles querem explorar os índios.”
Ué, então precisamos ajudá-los/alertá-los!
Eu, tu, eles, TODOS os brasileiros. E os amigos que os índios elegem também.
Índio não é bobo.
Mesmo porque bobo e puro são coisas diferentes, né? Podem existir
muitos ameríndios ainda puros (do ponto de vista etnológico): os
isolados, os que evitam contato, mas os grupos que já mantêm diálogo com
o ‘homem branco’ há algumas gerações - não, eles não são bobos.
Suponho apenas que sua cultura (e modus vivendi) não os aparelhou com
certas defesas humanas características do processo
civilizatório/capitalista; talvez lhes falte malícia em situações
específicas, o que creio estar intimamente associado ao desconhecimento
das fronteiras tecnológicas/econômicas do ‘homem branco’.
Um
exemplo do abuso dessa ‘pureza ou falta de malícia’ é o caso que ficou
conhecido como ‘Sangue Yanomami’. Provavelmente aí em Brasília você já
tenha ouvido algo a respeito. Entre as décadas de 60 e 70 pesquisadores
americanos coletaram (no Brasil e na Venezuela) amostras de sangue de
índios de várias etnias e o fizeram sem a autorização das lideranças
desses povos. Recentemente, mais de 2000 frascos contendo sangue
yanomami foram repatriados e devolvidos à comunidade Piaú.
Então,
veja bem, baseando-me no termo usado por você: ‘O COMENTÁRIO aqui...’
(que, convenhamos, é por demais evasivo) - a verdade é que precisaríamos
ser muito inocentes para achar que só (agora) estrangeiros possam estar
(querendo) explorando os índios. Tem mineiros, mato-grossenses,
maranhenses, gaúchos, cariocas, amazonenses, paulistas...
Aliás,
todos nós exploramos a Amazônia. Direta ou indiretamente contribuímos
para a exploração física e social da floresta e das pessoas que vivem
sob ela.
E, não, antes que se faça uma falsa correlação entre ‘ok
estrangeiros nas aldeias indígenas’ com um ‘então é a favor da
Internacionalização da Amazônia’- NÃO. Eu não sou a favor da
internacionalização da Amazônia; mesmo não concordando com as diretrizes
nacionais propostas (impostas?) para a região e mesmo sabendo que não
estamos fazendo o que deve ser feito para proteger este patrimônio de
importância incalculável e insubstituível.
Mas acredito que o
meio ambiente possa vir a ter causas pensadas em conjunto, pacífica e
sabiamente à luz da humanidade. Não falo em perda de soberania.
Bom, agora é juntar os pontos, ou riscar os Ts: TERRAS INDÍGENAS e FLORESTA.
É mais do que sabido que são eles que mantêm a floresta em pé. São
centenas de anos vivendo em equilíbrio com seu meio ambiente.
(Desculpa agora um encantamento que me surge no horizonte da mente: não
acha admirável que em pleno século XXI, entre satélites e ‘zap zaps’,
existam seres humanos vivendo em total e harmônica autossuficiência
dentro de florestas? Um lugar que, para a grande maioria de nós, seus
contemporâneos caras-pálidas: é o retrato de um ambiente hostil e
inóspito?)
É mágico isso, Felipe! É da ordem das coisas que deveriam ser amorosamente protegidas, cuidadas, defendidas e preservadas.
E até por um lado, digamos, ‘Nova Era’ (pelo qual tenho afinidade): é
tanta gente buscando conexões espirituais, do xamanismo à física
quântica - e tanto conhecimento ancestral bem aqui, debaixo dos nossos
narizes (bem, no nosso caso em particular, narigudos que somos: há de
ter um vasto e desconhecido mundo de sabedorias natas – por isso tão
raras e preciosas. Façamos a nossa parte, primo, pelas gerações
vindouras.).
Eu tento encontrar poesia.
Como ‘rios aéreos’... Acho poético.
UFJF, Curso de Biologia. Aula de Biogeografia. Evapotranspiração. ‘A
imensa quantidade de vapor d’água que resulta da evapotranspiração
realizada pela Floresta Amazônica forma uma massa de ar carregada de
umidade que viaja até colidir com as elevadas paredes dos Andes; parte
precipita alimentando a Bacia Amazônica, mas quantidades generosas de
umidade são desviadas e se deslocam para outras regiões ajudando a
garantir o equilíbrio hídrico das mesmas sob a forma de chuvas. Aqui no
Sudeste inclusive. ’
Já na década de 80 eu conhecia e me
maravilhava com este fenômeno. Agora, com a crise hídrica instalada, não
é preciso ter quase se formado em Biologia para entender a íntima
relação entre a Chuva Donzela visitando o Sudeste e a generosidade
maternal de sua Grande Dama, a Floresta Amazônica.
Achei ótimo o
desenho simples e esclarecedor que circulou nas redes sociais: um
mapa-múndi localizando e demarcando nosso ‘Quadrilátero Afortunado’.
Mas por que a porção meridional da América do Sul, a leste dos Andes, não é desértica como áreas na mesma latitude?
UFJF, Curso de Biologia. Aula de Biogeografia. Evapotranspiração. ‘A imensa quantidade de vapor d’água...
Assim, visto que são os povos nativos - índios, ribeirinhos e
quilombolas amazônidas - que mantêm a floresta em pé, e vivenciando na
pele (seca) o que cientistas e ambientalistas vêm nos alertando há
décadas: "A Floresta Amazônica não é uma CONSEQUÊNCIA do clima, mas,
sim, a sua CAUSA." Eneas Salati em meados de 70 – digo NÃO a PEC215.
(Ainda mais com essa maioria, empoderada em bancadas, ocupando
atualmente o Congresso. Uma maioria formada por pessoas e opiniões que -
por essência e coerência – absolutamente não me representam.)
Enfim, sou TOTAL e FRONTALMENTE CONTRA a PEC215:
- por respeito ao ser humano e por não concordar com Emendas
Constitucionais que rasgam direitos adquiridos. (Como cidadã, não gosto
de retrocessos.)
‘Art. 231. São reconhecidos aos índios sua
organização social, costumes, línguas, crenças e tradições, e os
direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam,
competindo à União demarcá-las, proteger e fazer respeitar todos os seus
bens.’
Obs: acordou-se que até 1993 todas as terras indígenas deveriam ser demarcadas. Não o foram.
- e, pelo mais egoístico dos motivos: SOBREVIVÊNCIA própria mesmo. Eu
quero viver os próximos 50 anos que me restam (acho 96 um bom número)
num planeta Terra como este que eu (ainda) (re) conheço...
E vejo na sobrevivência digna dos índios uma forte garantia da manutenção da Vida como ela é.
(Mad Max só é legal nas telas.).
E, primo: você me conhece, tenho meus rituais ‘amalucados’ e quero
continuar reverenciando todas as NASCENTES que eu encontrar e sendo
abençoada teluricamente pela ÁGUA que brota delas.
OBS: ah, e
antes que você, ou qualquer outro leitor (animado, hein) deste breve
testamento, me aponte vários (e verdadeiros) casos de índios
permissivos, índios subornáveis, índios isso, índios aquilo - eu exponho
um pensamento que aprendi com papai: existem filhos da puta em todo
lugar (não que ele usasse o termo chulo, chamava de ‘pilantra’).
Encafifada, na época aluna ginasiana do colégio Jesuítas, lembro-me de
perguntar: mas acha que até mesmo um Papa pode ser canalha? E o que ele
me respondeu? Nada. Só me fez a pergunta: “O Papa é humano?”.
Aliás, primo, um baita humanista esse nosso atual sumo sacerdote, não
acha? Eu, embora neta de Zezé que-não-perdia-um-domingo-de-missa, não
sou exatamente uma católica ao pé da prece, tendo mais para essa coisa
(lógica) de achar a Natureza sagrada, de chamar o planeta de Mãe; mas
quer saber? Acho o Francisco um fofo. Amante dos animais, amante da
verdade, da vida, da humildade, da simplicidade, do bom humor, do meio
ambiente, etc, etc, etc, ah – e dos índios.
‘É fim, agora, né, sô?!’
Já tô terminando! Falta só uma coisinha:
Querido primo: por favor, não tome como dirigidas belicamente nenhuma
destas minhas palavras. Justo pelo contrário: são fontes incondicionais
de carinho por você e sua linda esposa, claro – mas, e principalmente –
pelo seu BELÍSSIMO casal de filhos!!!
(Socorro, Fernanda e
Felipe! O que são Paulo Victor e Marcela?! PARABÉNS! Que os Anjos
Guardiões deles os iluminem e guiem vida afora.)
Que venham os netos! E que eles encontrem ares puros e águas limpas, vida, amor e paz em abundância! Um bando de beijos-flor (Thalurania watertonii)